quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A tradição do "Pão por Deus"

“Pão-por-Deus, por alma dos seus”. Neste dia 1 de Novembro, era este o pregão nas ruas da gente pobre que sempre fomos. Não é uma tradição açoriana, já que terá sido trazida pelos primeiros habitantes e reconhecem-se as suas origens em vários pontos do Continente. O que se sabe é que o “Pão-por-Deus” ganhou contornos especiais nas ilhas, fruto do isolamento, das fomes e dos cataclismos e daqui partiu para outras paragens há quase 300 anos, como acontece em Santa Catarina na Brasil.
   Começou por ser um peditório pelas almas, para se tornar mais tarde, um dia de partilha, do pouco que havia e de que tudo se dava. Dar um pão pelas almas, nesta altura do ano, era como que fazer o regresso de memórias e dores, despejadas do alto das torres que não se cansavam de repetir os “sinais” a lembrar que “as misérias deste mundo um dia passam”.
   O culto dos mortos era peça fundamental no mundo dos vivos. A tradição não é estática e por isso mesmo, desde o tempo do “pão” dado anonimamente e deixado no parapeito da janela, para ser recolhido pela primeira pessoa que passasse, desde o cálice de aguardente ou do copo de vinho pelas almas, até às saquinhas de retalhos de fazenda, com castanhas e rebuçados à mistura, vai uma grande distância.
   “Pão-por-Deus” andava na boca das pessoas e congregava não só as crianças, mas gente graúda que não resistia ao sabor de um prato de milho cozido ou a um punhado de castanhas cozidas.
   Aliás, no “ Pão-por-Deus”, todos os que podiam tinham nas suas casas uma boa panela de milho cozido, de preferência branco misturado com amarelo, e as castanhas eram indispensáveis, compradas à quarta (medida de que hoje poucos se lembrarão) e cozidas para dar e comer. Rebuçados e guloseimas, tudo isto surgiu mais tarde para gáudio do rapazio e das meninas que neste dia lá iam tirando o desconsolo de todo o ano, mesmo com os rebuçados feitos em casa, com calda de açúcar e um pouco de vinagre.
   Da tradição fica a recordação das saquinhas de chita, ou de quadradinhos de fazenda que as crianças levavam e que gostavam de trazer cheias de doces ou outras guloseimas. Mais que tudo, ficava o agradecimento e para quem abria a porta, a sensação de “já termos estado no outro lado da barricada”. E recorda-se sempre a forma como se dizia:
   Abre a porta ao Pão-por-Deus
Dá-me qualquer esmola
Seja por alma dos seus
O que puser na sacola…

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Ilha de S.Jorge - Vila das Velas



A vila das Velas É sede de um município com 119,08 km² de área e 5 398 habitantes (2011), subdividido em 6 freguesias. O município é limitado a leste pelo município da Calheta, e tem litoral no Oceano Atlântico em todas as outras direcções.
   Está  localizada num extenso terreno relativamente plano junto à costa ao lado das montanhas e longas arribas junto a uma longa enseada e tem cerca de 1985 habitantes.
   A A origem do seu nome nunca foi esclarecida pelos historiadores. Pode no entanto, segundo esses mesmos historiadores poder remeter-nos para as "velas" das embarcações, para vigias ou para o termo velar, para o nome de povoações com o mesmo nome no continente português, para o termo "velhas" ou mesmo para a palavra "belas". É, no entanto, mais provável que o nome provenha dos termos “velas de embarcação”, ou dos termos velar/vigília. Tendo em atenção as embarcações usadas no tempo da sua fundação e a outra, tendo em atenção as forças telúricas que se movimentam nestas ilhas e que muitas vezes obrigavam as populações a ficar a velar ou de vigília durante as crises vulcânicas para poderem dar o alerta em caso de necessidade.
   É um dos povoados mais antigos da ilha de São Jorge. E foi edificada em consequência do testamento do Infante D.Henrique datado de 1460, feito numa igreja debaixo da invocação de São Jorge. O município das Velas foi criado por volta de 1490 ou mesmo antes, sendo que a elevação da povoação à categoria de vila terá ocorrido por volta de ano de 1500, por carta de D.Manuel I de Portugal. Esta localidade já surge como vila num mapa de 1507. No ano de 1570 as Velas teriam cerca de 1000 habitantes e 2000 habitantes no fim do século XVII, número que aumentaria para 4200 no ano de 1822, e que mais tarde diminuiu devido à emigração.
   O Jardim da Praça da República ocupa o largo principal da vila de Velas, local onde em tempos idos esteve localizado o mercado da localidade. Este jardim encontra-se delimitado por muros baixos dotados de um gradeamento superior, canteiros de formas variadas, arbusto e algumas árvores. Ao centro possui um coreto.
   O jardim encontra-se no centro de uma envolvente de edifícios e integrado num espaço que não lhe dá qualquer hipótese de crescer. Beneficia no entanto de uma excelente enquadramento arquitectónico dos prédios urbanos que tem em volta. Desses edifícios sobressai o edifício da Câmara Municipal, um dos exemplos máximos do barroco insular na ilha de São Jorge. Do lado oposto a este, ergue-se o edifício da sociedade filarmónica velense,
   

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Ilha Graciosa - Lenda do Vai-te com o Diabo



Era uma vez uma mulher de Guadalupe, na Graciosa, que ía casar uma filha em poucos dias. Estavam a fazer as cozeduras e, com todos os preparativos, a mulher já tinha gasto muito do pouco que tinha. É que para casar uma filha são gastos e mais gastos.
   Numa certa altura, a mulher já estava farta de puxar pela carteira e,
arrenegada, virou-se para a filha e disse:
   - Vai-te com o diabo, rapariga, que me levas tudo o que tenho!
   Ninguém prestou atenção a estas palavras, mas passado pouco tempo , quando foram pela rapariga, não a encontraram em casa nem na vizinhança. Toda a gente ficou muito aflita, principalmente os pais e o noivo. Começaram então a procurar em lugares mais distantes, até que, sem saber mais onde procurar, foram para a serra e chegaram junto de um algar a que chamam de Caldeirinha. Desceram o mais depressa que puderam a vereda perigosa que conduz até à entrada de forma arredondada que conduz não se sabe onde? Ainda mais surpresas e aflitos ficaram, quando viram ali as galochas da rapariga e acreditaram que ela estava dentro da Caldeirinha.
   Foram buscar cordas muito fortes, ataram-nas umas às outras e o noivo amarrou-se. Cheio de medo por não saber o que ia encontrar lá dentro, foi descido pelo buraco escuro e medonho. No fundo encontrou a infeliz rapariga, tremendo de medo e aparvalhada. Amarrou-a também com as cordas e lá subiram os dois.
   O pior estava passado!  Mas quando questionaram a rapariga como tinha ído ali parar, ela não sabia ao certo. Então a mãe lembrou-se da blasfémia que tinha dito, tendo-a entregue ao diabo. Ele, que anda sempre à procura de almas, levara-a logo para o lugar onde se costumava esconder, a Caldeirinha.

domingo, 28 de outubro de 2012

Ilha Terceira - Porto Judeu



O Porto Judeu localiza-se no concelho de Angra do Heroísmo.Abrange uma área de30,86 quilómetros quadrados, dos quais 28,5 na ilha propriamente dita, e os restantes 2,36 constituídos pelos Ilhéus das Cabras. Estende-se do litoral, onde confronta com as freguesias de São Sebastião e Feteira, ao interior, onde confronta com as freguesias da Ribeirinha, São Bento, Posto Santo, Quatro Ribeiras e Agualva.
   Possui 2 501 habitantes, segundo o censo geral de 2011. A população ativa ocupa-se em atividades diversas como a agro-pecuária, a pesca, construção civil, mercearia e carpintaria,panificação, restauração e similares e serviços. Parte significativa da população ativa desloca-se e trabalha em Angra do Heroísmo e Praia da Vitória.
   A freguesia tem um porto e uma excelente zona balnear. Por situar-se numa zona muito seca, possui um microclima também seco e salubre.
   Desconhece-se a data de criação da freguesia, primitivamente denominada como Porto Judeu de Santo António e também de Porto do Judeu. Segundo a tradição, aqui terão desembarcado os primeiros povoadores da Terceira. Entre as lendas mais conhecidas que buscam justificar a toponímia, refere-se que Jácome de Bruges, primeiro capitão do donatário , aqui terá desembarcado a 1 de Janeiro, premido pelo mau tempo e pela necessidade de abrigo naquela data. Como a enseada do porto é de pequenas dimensões, não oferendo grandes condições de abrigo, e por naquele tempo chamar-se de "judeu" a tudo que fosse mau, afirma-se que o ancoradouro foi por essa razão chamado de Porto Judeu.
   Embora não tenham chegado até nós fontes documentais sobre a fundação da freguesia, a informação do povoamento coevo ao da ilha é confirmada pelo fato da construção da igreja paroquial ser anterior a 1470.
   O povoado foi estabelecido em sesmaria recebida do capitão do donatário pelo senador João Coelho, filho de Pêro de Coelho , conselheiro de Afonso IV de Portugal, um dos implicados no assassinato de Inês de Castro. João Coelho acompanhava Jácome de Bruges na sua segunda viagem à Terceira, mas não se fixou na ilha, tendo partido em outras conquistas. Os 32 molhos de terra que recebeu foram, em pouco tempo, passados pelos seus familiares e, do que sobrou, constituiu-se a freguesia. O seu sobrenome sobreviveu na toponímia, na chamada ponta dos Coelhos, que se estende do pico do Refugo até à Salga.
   A povoação de Porto Judeu foi elevada à categoria de Vila por Carta-Régia de D.Manuel I, datada de 12 de Fevereiro de 1502 estatuto revogado no ano seguinte quando da elevação do lugar da Ribeira de São João a Vila de São Sebastião (1503) e sede de concelho. A criação deste dividia a Terceira em três partes, separando Angra e a Praia de um lado ao outro da ilha e ficando o Porto Judeu adstrito à Vila de São Sebastião até 1870, quando passou a integrar o concelho de Angra do Heroísmo.
   
   

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Ilha de S.Miguel - O Lugar da Ferraria.



O Lugar da Ferraria,  situa-se  no extremo sudoeste da ilha de São Miguel,junto ao mar.
   Integrado no Monumento Natural Regional do Pico das Camarinhas e Ponta da Ferraria, esta zona de proteção da natureza é composta por diversas estruturas de origem vulcânica de grande valor paisagístico e científico.
   Este acontecimento geológico é anterior ao povoamento da ilha de São Miguel e teve origem numa erupção estromboliana que construiu um cone de escórias e originou uma escoada de lava. A lava desceu pela arriba em direção ao mar e construiu uma fajã lávica.
   A entrada desta corrente lávica no mar, gerou uma explosão freática, que por sua vez criou uma estrutura vulcânica em forma de cone, encimada por uma cratera.
   Não sendo uma cratera comum, por não estar associada a uma chaminé vulcânica de cuja profundidade viria o magma, esta cratera é científicamente designada de pseudocratera e é considerada, pela sua singularidade e beleza, um Geomonumento a preservar.
   Mas para além da sua beleza e interesse científico, o lugar da Ferraria tem outra grande riqueza: as suas duas nascentes de águas termais de origem vulcânica que aquecem as piscinas naturais da Ferraria e abastecem o seu complexo Termal. As qualidades terapêuticas das águas termais da Ferraria levaram a que esta se tornasse um local quase de culto.
   As suas Termas  datam de meados do século XX, mas as qualidades da sua água já eram referidas quatro séculos antes por Gaspar Frutuoso na obra ‘Saudades da Terra’.
   Consideradas um caso único no mundo, devido à existência de água salgada termal com um teor de enxofre muito elevado, as águas da Ferraria, além de curarem problemas de reumatismo e nevrites, são também usadas para tratar de doenças de outros foros.
   Com o investimento recentemente concluído, foi possível manter a traça original do edifício original e, em simultâneo, dotá-lo de evoluídos equipamentos, o que permitiu criar um moderno SPA Termal, que concilia o conceito tradicional de termas com fins terapêuticos e medicinais a uma vertente mais moderna de turismo termal e de técnicas de fisioterapia, relaxamento e bem estar.
   
   

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Ilha Terceira - Porto Martins.

O Porto Martins é uma freguesia essencialmente rural, que se situa no concelho da Praia da Vitória.
   A sua paisagem é bastante invulgar e variada, carateriza-se por estar coberta de vinhas estendidas por cima das pedras, e também por possuir bastantes pomares entre os quais se destacam os únicos na ilha Terceira onde se cultiva a oliveira.
   Provavelmente a enseada de Porto de Martim é assim referida devido a Martim Anes, um dos primeiros habitantes deste lugar, no qual fez uns granéis mui grandes, e os primeiros da ilha. O mesmo autor acredita que parece ser o mesmo que serviu de vereador na Câmara Municipal de São Sebastião no ano de 1526.
   Foi desmembrada da vizinha freguesia do Cabo da Praia,  em 9 de Maio de 2001 por força do Decreto Legislativo Regional 11/2001/A de 26 de Junho do Parlamento açoriano, data em que foi elevada a freguesia.
   Esta freguesia deve muito à filantropia de José Coelho Pamplona, 1.ºvisconde de Porto Martins, natural da freguesia, que doou os fundos necessários para a construção da igreja paroquial, ampliando a antiga ermida de Santa Margarida, da escola primária e do primitivo sistema de chafarizes que abastecia a povoação. O visconde do Porto Martim foi uma das figuras mais ilustres da comunidade portuguesa de São Paulo, no Brasil.
   Quanto ao seu Património Natural, destaca-se a Gruta da Furna da Madre de Deus e a Piscina Municipal.
   No Património Edificado, merecem relevo , a Igreja Paroquial, o Forte de Nossa Senhora da Nazaré,o Chafariz do Largo Comendador Pamplona, o Forte de S.Bento e o Império do Divino Espírito Santo.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Ilha de S.Miguel - Caldeira Velha.



A Caldeira Velha é uma Reserva Natural localizada no concelho da Ribeira Grande, ilha de S.Miguel.
   É uma Reserva da Biosfera de grande importância para a botânica e faunas típicas das Florestas da Laurisilva, dada a grande diversidade de espécies e a elevada abundância de fetos arbóreos que povoam este Monumento natural, principalmente devido ao clima muito próprio que estimulou o aparecimento de associações de vegetação natural e floresta de espécies exóticas.
   Carateriza-se também pelas suas características geológicas uma vez que que forças telúricas se fizeram sentir aqui em tempos geologicamente recentes com grande intensidade. O seu relevo acidentado profundamente encaixado na montanha do Pico do Fogo, aliado a uma ribeira com pequenos açudes e abundantes caudais em determinadas épocas do ano.
    Os Açudes, devido à temperatura da água e a suas características medicinais são utilizadas há séculos para banhos.
   Esta ribeira é alimentada por nascentes de água quente de origem termal que caem formando cascatas com água acastanhada devido à grande abundância de ferro existente na água.
   É de salientar a abundância de caldeiras, fumarolas e afloramentos rochosos de cores variadas.
   O seu ponto de maior altitude encontra-se nos 628 metros e faz parte dos contrafortes do Vulcão do Fogo, cuja cratera se encontra alojada a Lagoa do Fogo.